Estudo da Unifesp identifica proteína que pode frear progressão e metástase do câncer
Pesquisa da Unifesp mostra que o bloqueio da proteína sindecam-4 pode paralisar a divisão celular e evitar metástases
Por Davy Albuquerque
Uma pesquisa conduzida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indica que a proteína sindecam-4 (SDC4), encontrada na superfície das células, pode ser um alvo para o combate ao câncer. Experimentos realizados em laboratório mostraram que o bloqueio dessa molécula funciona como um freio biológico, capaz de paralisar a divisão celular e reduzir a capacidade invasiva de células tumorais.
O estudo, publicado na revista Cytotechnology, aponta que a estratégia de silenciar a proteína pode impedir a progressão da doença ao neutralizar o mecanismo que facilita as metástases. Ao bloquear a SDC4, as células perdem a proteção que utilizam para sobreviver soltas no organismo, processo que as torna vulneráveis à morte celular programada.
Como a proteína age no câncer?
De acordo com a professora Carla Cristina Lopes, do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp, a proteína SDC4 é essencial para que as células se ancorem umas às outras e à matriz extracelular. Em células saudáveis, o desprendimento do tecido aciona um processo de autodestruição chamado anoikis (morte por falta de adesão).
Contudo, células tumorais agressivas conseguem subverter esse mecanismo. Elas passam a produzir a SDC4 em quantidades excessivas, o que permite que sobrevivam mesmo sem estarem presas a um tecido, migrem pela corrente sanguínea e colonizem outros órgãos, caracterizando a metástase.
A pesquisadora explica que a superexpressão dessa molécula está diretamente associada ao desenvolvimento e ao avanço do câncer, servindo inclusive como um potencial marcador para acompanhar a evolução de tumores.
O que os testes de laboratório revelaram?
Para compreender o mecanismo, os pesquisadores testaram células de vasos sanguíneos de coelhos em ambiente de laboratório. Foi observado que um pequeno grupo de células — menos de 5% — conseguiu sobreviver ao desprendimento do tecido, tornando-se altamente agressivo e aumentando a produção da proteína SDC4.
Ao utilizarem técnicas de engenharia genética para "silenciar" (desligar) a SDC4, os cientistas constataram que as células perderam as características malignas. Sem a proteína, elas voltaram ao estado normal e passaram a depender da adesão física para continuar vivas, o que aumentou a morte programada das células tumorais.
A investigação mostrou ainda que a proteína interfere no ciclo de multiplicação celular. O silenciamento do gene da SDC4 provocou um aumento na produção da molécula p27, que inibe a divisão celular, ajudando a reequilibrar o ritmo de crescimento das células.
A pesquisa contou com o apoio da Fapesp e financiamento do CNPq, da Capes e da Finep. O grupo agora trabalha para replicar os resultados em células humanas e estuda se o canabidiol pode auxiliar na modulação da proteína para conter o crescimento desordenado dos tumores.
