Estudos associam cabeceios no futebol a alterações na estrutura do cérebro
Pesquisas indicam que impactos repetidos na cabeça, mesmo sem concussão, podem causar mudanças na substância branca e cinzenta do cérebro.
Por Davy Albuquerque
Pesquisas da medicina esportiva investigam se a repetição de impactos na cabeça durante o futebol, mesmo sem o diagnóstico de concussão, pode estar associada a alterações na estrutura do cérebro. Estudos indicam que o ato de cabecear a bola pode gerar mudanças nas regiões que processam informações e conectam diferentes áreas cerebrais.
Uma revisão sistemática de estudos de ressonância magnética, publicada na revista Neuroradiology, concluiu que o cabeceio está associado a variações de moderadas a grandes na integridade da substância branca. A substância branca é formada por fibras que conectam as áreas do cérebro, enquanto a substância cinzenta concentra os corpos de neurônios.
Apesar das alterações detectadas, os achados metabólicos e estruturais possuem significado clínico incerto. Os pesquisadores ressaltam que essas mudanças não significam necessariamente que o atleta desenvolverá sintomas ou doenças neurológicas de forma imediata.
O que dizem os estudos com atletas?
Em pesquisa apresentada na reunião anual da Sociedade Radiológica da América do Norte, em 2024, pesquisadores da Universidade Columbia (EUA) analisaram exames de ressonância magnética de 352 jogadores amadores. O grupo, composto por homens e mulheres de 18 a 53 anos, foi comparado a 77 atletas de esportes sem colisão, como corredores.
Nos jogadores que relataram cabecear a bola com maior frequência, foram observadas alterações na substância branca, especialmente em regiões próximas aos sulcos cerebrais e no lobo frontal. Tais mudanças também foram associadas a um desempenho inferior em testes de aprendizagem verbal.
Um detalhamento desse estudo, publicado na revista JAMA Network Open, identificou a região orbitofrontal como um ponto de alteração na interface entre a substância cinzenta e a branca. A área fica localizada acima das órbitas dos olhos e ajudaria a explicar a associação com o desempenho verbal.
Contudo, o grupo de pesquisadores ressalta que o estudo não permite afirmar que o cabeceio cause perda cognitiva ou doenças neurodegenerativas. A investigação permanece em campo para entender o vínculo causal entre a prática e possíveis danos.
Efeitos imediatos e recomendações
Outra linha de investigação analisa os efeitos instantâneos de pequenos impactos. Um ensaio clínico publicado na Sports Medicine – Open, em 2025, observou que jogadores adultos que realizaram 20 cabeceios em 20 minutos apresentaram alterações sutis em exames de ressonância e aumento de proteínas sanguíneas ligadas a células cerebrais.
Mesmo com essas mudanças detectadas, não houve alteração na função cognitiva dos participantes, que relataram poucos sintomas. O neurocirurgião Andre Gentil, do Hospital Israelita Albert Einstein, afirma que as evidências sugerem a necessidade de reduzir a exposição a esse tipo de trauma.
A recomendação de cautela deve ser aplicada especialmente a crianças e adolescentes. Gentil observa que as alterações nas vias neurais detectadas por ressonância indicam sinais de pequenas mudanças nas conexões, mas não servem como prova de dano clínico imediato.
O médico destaca que a prática esportiva é sinônimo de saúde física e mental, especialmente na infância. Segundo ele, o risco de hábitos sedentários em jovens é uma preocupação maior do que o impacto ocasional da bola na cabeça.
Prevenção e segurança no esporte
A relação entre cabeceios e o risco de doenças neurodegenerativas ainda depende de estudos de longo prazo. O maior levantamento sobre o tema, iniciado em 2014 nos Estados Unidos pelo NCAA-DOD CARE Consortium, acompanha mais de 53 mil atletas universitários e militares para entender as consequências reais desses traumas ao longo das décadas.
Enquanto os resultados definitivos não surgem, a orientação é manter o bom senso e reduzir a frequência de impactos na cabeça em jovens. Atualmente, a Fifa possui regras específicas para casos de concussão, mas não há normas para cabeceios ou impactos subconcussivos comuns no jogo.
Alguns países já adotaram medidas mais rígidas, como a proibição do cabeceio abaixo de certas idades. No entanto, cabe aos pais, técnicos e associações esportivas determinar as melhores estratégias de prevenção para cada categoria de atletas.
